Imunização em pacientes pneumopatas: abordagem atual
Dr. Mauro Gomes | CRM-SP 59917
Pneumologista; Professor da Disciplina de Pneumologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo; Chefe de equipe de Pneumologia do Hospital Samaritano-Higienópolis; Editor científico do portal de atualização médica PneumoImagem.
Introdução
Pacientes com doenças respiratórias crônicas, como Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), asma, fibrose pulmonar idiopática (FPI), estão em maior risco de desenvolver infecções respiratórias graves. Essas infecções podem levar a exacerbações, piora da função pulmonar e aumento da mortalidade. A prevenção através da vacinação é uma estratégia crucial para reduzir a carga dessas doenças, diminuir a incidência de infecções, melhorar a qualidade de vida e reduzir a hospitalização e mortalidade associadas.
Riscos dos Patógenos e Respectivas Vacinas
Influenza
Pacientes com doenças respiratórias crônicas têm maior risco de complicações pela gripe, incluindo exacerbações de asma e DPOC, pneumonia e morte. Por conta disso, a vacinação anual contra a influenza é recomendada para esses pacientes. Para idosos, que possuem menor resposta vacinal devido à imunossenescência, foi desenvolvida mais recentemente a vacina de alta dose, que contém quatro vezes mais hemaglutininas de cada uma das quatro cepas de Influenza A/B que a vacina convencional. Essa composição demonstrou uma eficácia superior em comparação com a vacina padrão, com uma redução adicional de 24,2% nas infecções por influenza que a vacina convencional e uma redução incremental de 27,3% nas hospitalizações [1,2].
No final do ano de 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou a retirada da cepa Yamagata da composição das vacinas quadrivalentes contra influenza devido à sua não circulação global desde 2020. Isso infere que a eficácia atual das vacinas trivalentes e quadrivalentes utilizadas seja a mesma [3].
Pneumococo
A infecção por Streptococcus pneumoniae pode causar pneumonia, septicemia e meningite, sendo especialmente perigosa para pneumopatas. Em pacientes com DPOC, a vacinação pneumocócica mostrou reduzir a incidência de pneumonia adquirida na comunidade e exacerbações [4].
Existem duas principais classes de vacinas pneumocócicas que podem ser utilizadas: a conjugada (PCV) e a polissacarídica (PPSV). As vacinas conjugadas, como a PCV13, PCV15 e a mais recentemente lançada, PCV20, induzem uma resposta imunológica T-dependente, conferindo memória imunológica e maior eficácia em populações imunocomprometidas. Em contraste, a PPSV23 induz uma resposta T-independente, sendo eficaz na prevenção de doenças invasivas, mas com menor duração da imunidade e sem apresentar reposta imunogênica satisfatória com a revacinação em cinco anos [5]. A PCV20 demonstrou eficácia de 75-85% na prevenção de doenças pneumocócicas invasivas e não invasivas [5].
Vírus Sincicial Respiratório (VSR)
O VSR pode causar infecções graves, principalmente em idosos e pessoas com doenças pulmonares crônicas. Pacientes com DPOC ou asma estão em maior risco de exacerbações e hospitalizações devido ao VSR [6,7].
Duas vacinas recentemente aprovadas estão disponíveis para adultos, sendo uma com um adjuvante e outra sem adjuvante. A vacina com adjuvante mostrou uma eficácia de 94,1% na prevenção de infecções graves em adultos mais velhos, enquanto a sem adjuvante apresentou uma eficácia de 85,7% de proteção contra as formas mais graves da doença em idosos, além de também ser permitido o seu uso em gestantes [8, 9]. Ambas as vacinas têm perfis de segurança aceitáveis, com eventos adversos leves.
COVID-19
A COVID-19 tem se mostrado especialmente perigosa para pessoas com DPOC, aumentando o risco de hospitalização, ventilação mecânica e morte. Pacientes com FPI também apresentam risco elevado devido à fibrose e à capacidade reduzida de troca gasosa. Em asmáticos, a COVID-19 pode aumentar o risco de exacerbações e hospitalizações, embora o impacto não seja tão grave quanto em pacientes com DPOC [10].
A vacinação contra a COVID-19 é altamente recomendada para os pneumopatas. As vacinas monovalentes atuais aumentam a cobertura contra as variantes virais emergentes da cepa Ômicron (XBB1.5), proporcionando um aumento de 54% na proteção contra a infecção sintomática por SARS-CoV-2 em comparação com nenhum recebimento da vacina atualizada, com um perfil de segurança robusto [11,12]. Dados recentes apontam proteção também contra as linhagens JN.1 e KP.2, mais circulantes no Brasil e no mundo em 2024 [13,14].
Coqueluche
A coqueluche é uma infecção respiratória que pode ser grave em adultos com doenças pulmonares crônicas, levando a exacerbações e complicações. Estudos mostram que adultos com asma têm um risco duas vezes maior de infecção por coqueluche, e pacientes com DPOC acima dos 50 anos apresentam risco até cinco vezes maior [15,16].
A vacina DTPa (difteria, tétano e pertussis acelular) é recomendada para adultos, especialmente para aqueles com DPOC. Estudos mostram uma eficácia de cerca de 80-90% na prevenção de infecções graves [17,18].
Herpes-zoster
Embora não seja um vírus respiratório, o Herpes-zoster é mais frequente em indivíduos com doenças pulmonares crônicas, como asma e DPOC. A reativação do vírus varicela-zoster nessa população devido à imunossupressão associada a essas condições e seus tratamentos, pode causar sérias limitações ventilatórias. Devido a isso, a vacinação com a vacina recombinante adjuvantada é recomendada para pacientes adultos com asma e DPOC. A eficácia demonstrada é superior a 90% na prevenção de Herpes-zoster e suas complicações, incluindo neuralgia pós-herpética [19].
Recomendações das Sociedades de Especialidade
A Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD) recomenda a proteção vacinal para portadores da DPOC contra Influenza, pneumococo, SARS-Cov-2, VSR, Bordetella pertussis e Varicela-zoster. [20]
A Global Initiative for Asthma (GINA) também recomenda a proteção contra os mesmos patógenos para os asmáticos, embora faça recomendações condicionais da vacinação contra a pneumonia e coqueluche para essa população por entender serem necessárias maiores evidências de proteção contra essas infecções na asma. [21]
A Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) lançaram em conjunto um guia de recomendação das vacinas para os pneumopatas que inclui a vacinação anual contra a influenza, a vacinação pneumocócica em esquema sequencial (PCV13 seguida por PPSV23), a vacinação contra a COVID-19, a vacinação contra o VSR, a vacinação contra a coqueluche (DTPa) a cada década e a vacinação contra o Herpes-zoster. [22]
Nos EUA, com a chegada da PCV20 contra o pneumococo, a recomendação atual da ACIP é pela vacinação dos adultos com dose única com essa nova vacina e sem a necessidade de vacinação posterior com a vacina polissacarídica. [23]
Conclusões
A imunização é uma estratégia essencial na gestão de pacientes com doenças respiratórias crônicas. As vacinas disponíveis demonstram eficácia significativa na prevenção de infecções graves e complicações associadas, reduzindo a mortalidade e melhorando a qualidade de vida dos pneumopatas. A adesão às recomendações das principais diretrizes internacionais e nacionais é fundamental para a proteção desses pacientes.
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Referências:
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3.
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Material destinado exclusivamente a profissionais de saúde habilitados a prescrever e/ou dispensar medicamentos.